Nota de Pesar - José Carlos Bruni

jose carlos bruni (2)O Departamento e o Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP comunicam, com pesar, o falecimento de José Carlos Bruni, ocorrido em 12 de novembro de 2025.

Homenagem a José Carlos Bruni

Em 2001, em seu discurso como paraninfo da turma que se formava na UNESP de Marília, onde trabalhava, José Carlos Bruni (1940-2025) chamou a atenção para o objeto que  os/as alunos/as receberiam em mãos: um canudo cilíndrico de papelão vazio, um tipo de bastão. Esse fato será o mote de sua fala, que passa a explorar os significados simbólicos do bastão em diferentes culturas e épocas, como vara de condão, apoio, cetro, objeto transicional. Esse episódio condensa muito do que o distinguia: a erudição a serviço da análise da minúcia que se converte em sentido, o ato de pensamento transcendendo a cerimônia, o golpe da surpresa que desautomatiza o concerto das convenções. O que foi original na solenidade, no entanto, não surpreenderia os/as que o conheceram como professor, seguramente uma legião ao longo de seus quase cinquenta anos de magistério, nem os/as que gozaram do privilégio ainda maior de serem seus/suas orientandos/as - já bem familiarizados com o estilo provocador e afetivo do mestre que se tornava cúmplice nas aventuras mais inusitadas do espírito, desde que bem fundadas. 

Bruni foi professor na área (e depois no Departamento) de Sociologia da USP entre 1971 e 1997, depois de sua primeira experiência docente na UNESP de Araraquara, numa geração em que havia muitos pensadores como ele, no limiar de uma transição para um padrão mais estrito do campo da sociologia em termos de delimitação metodológica e pesquisa empírica. Sua atuação visou preservar o valor da formação teórica profunda e diversificada, tarefa levada a cabo por ele e seus pares. O rigor analítico combinado com a inventividade do insight está presente em seu trabalho sobre Comte, infelizmente jamais publicado e em seus ensaios de sociologia do tempo, área que ele tentou consolidar numa perspectiva interdisciplinar, com colegas da física e da cronobiologia - não por acaso a revista do Departamento de Sociologia, de que foi um dos fundadores, chama-se Tempo social; mas está também, de forma menos evidente, em outro conjunto de trabalhos ainda mais ousados, como seu texto sobre a água, em que a fluidez da argumentação e da linguagem, mais solta e eivada de lirismo, espelham a fluidez do objeto.

Marcante entre seus pares e discípulos, sempre aberto ao convívio e à alegria do pensamento livre, Bruni, que sempre jogou no time dos ímpares, deixará vazia a posição que ocupava na sociologia brasileira.

Texto Por Fernando Antonio Pinheiro Filho

Em 1993, Bruni publicou o artigo “A água e a vida” em nossa Tempo Social. Ao final da mesma década, o Professor Leopoldo Waizbort publicou, em homenagem ao mestre, Glosa: especulação bastarda ao redor da água também na Tempo Social. Temos o prazer de compartilhar com vocês ambos os escritos.

A Água e a Vida - José Carlos Bruni

Bruni e a Água - Leopoldo Waizbort