Entre justiça, pragmatismo e ideologia: o Brasil e o conflito israelo-palestino
O que está acontecendo com as universidades norte-americanas? Donald Trump e a cruzada anti-Woke
Flávio Limoncic (Historiador, UNIRIO)
Segundo a historiadora Gertrude Himmelfarb, desde os anos 1960 os Estados Unidos têm sido palco da convivência, que hoje se revela crescentemente tensa, entre aqueles que abraçam valores “austeros” e os que se identificam com valores “soltos”. Associadas à agenda “Woke” no discurso do “Make American Great Again” - portanto, aos valores “soltos” -, universidades têm sido alvo de políticas públicas que buscam constranger sua liberdade acadêmica e saúde financeira.
A minha apresentação buscará identificar as razões da tensão entre os portadores de valores “austeros” e valores “soltos”, as raízes da tradição anti-intelectual nos Estados Unidos, ora organizada pelo campo dos valores “austeros”, e como Donald Trump conseguiu mobilizar um amplo espectro de interesses e atores em torno de uma agenda política que têm, entre seus supostos adversários, as universidades norte-americanas. Tornando a conjuntura ainda mais complexa, tal tensão tem sido acionada pela administração Trump em meio às manifestações pró-Palestina em diversos campi norte-americanos.
Primeiro, nas últimas duas décadas, além dos atores externos tradicionais (EUA, países europeus e Rússia), potências regionais ingressaram no jogo de influência. Isso aumentou as incertezas e a insegurança, levando à busca por aliados internos tanto entre palestinos quanto entre israelenses. Segundo, esse contexto externo encontrou uma afinidade eletiva com a hegemonia do nacionalismo conservador em Israel (extrema-direita) e na Palestina (Hamas).
A Longa Sombra do Estado-Nação: o conflito israelo-palestino e (algumas) lições da Sociologia Histórica
André Vereta-Nahoum (Sociólogo, USP)
Esta comunicação pretende refletir sobre o conflito israelo-palestino a luz da sociologia histórica. Fruto da destruição de dois impérios, vemos no conflito dois pleitos por autodeterminação presos a essa imaginação nacional. O conflito israelo-palestino é marcado por narrativas nacionais antagônicas, onde cada lado constrói sua identidade em oposição ao outro. A imaginação nacional, fundamentada em memórias coletivas e traumas históricos, reforça divisões e legítimas reivindicações territoriais. Israel baseia sua legitimidade no sionismo e no Holocausto, enquanto os palestinos enfatizam a Nakba e a resistência à ocupação. Essas narrativas, perpetuadas por instituições e discursos políticos, alimentam um ciclo de violência e disputa, dificultando a reconciliação. Pretendo contribuir para o debate a partir da apresentação de alternativas no presente para conjugar esses pleitos com a extensão de cidadania e dignidade a todas as populações envolvidas em Israel e na Palestina.
O historiador procura reconstruir o passado respeitando as fontes disponíveis. Ao mesmo temo ele interroga a história a partir de um substrato normativo, e, por vezes, orientado por visões ideológicas ou, inclusive visando seu uso político.
A história se transformou no campo privilegiado do embate ideológico no conflito Israel-Palestina. Argumentarei que se permanecer no campo do que aconteceu no passado o conflito leva à destruição mútua. A resposta aos problemas do presente não é dada pelo passado, ainda que ele deva ser levado em consideração, mas pelos dados do presente e pelo projeto de futuro.
Cada fascismo cria seu próprio "judeu" como instrumento de mobilização permanente de paixões extremas.Nos Fascismos históricos, na Itália e na Alemanha, foram os "gli altri popoli contro il' Impero e il Duce" e todos os chamados de "aus-landisch" - estrangeiros e estranhos ao sangue ariano - os que estavam fora da "Volksgemeinschaft". Judeus, o povo Roma & Sinti, eslavos, deficientes, homossexuais, todos que não fossem dolicicéfalos, louros e de olhos azuis - a fantasia letal do nazismo, a "Herrenrasse". Hoje, na Ressurgência fascista o "outro", o novo judeu conveniente para a mobilização das massas da pequena burguesia, dos "estranhados" da terra-plana, são os "indocumentados", latinos e africanos, morenos, negros e pardos que arriscam a própria vida para atravessar fronteiras, que ameaçaram a arianidade norte-americana e Europeia com a "grande substituição", uma invasão silenciosa da fortaleza wasp e a destruição dos "valores ocidentais" (o delírio do teórico neofascista Renaud Camus). A História não se repete. Trata-se em verdade dos enlaces e apropriações do passado no Tempo Presente, através de uma novilíngua racista que tem como gramática o antissemitismo.