Seminário História Global, Conflitos Atuais - Encontro às Quintas Especial - 11 de setembro de 2025

Programação
Abertura do seminário
Marcos Chor Maio (Sociólogo, Coordenador do Encontro às Quintas, PPGHCS/COC/Fiocruz)
 
Conferência: 9:30h

Entre justiça, pragmatismo e ideologia: o Brasil e o conflito israelo-palestino

Guilherme Casarões (Cientista Político, Florida International University, USA)
O Brasil possui uma longa relação com o Oriente Médio e, em particular, com a questão israelo-palestina. Da aprovação da Partilha da Palestina, em 1947, pelas mãos de Oswaldo Aranha, aos desdobramentos pós-7 de outubro de 2023, diversos governos brasileiros se engajaram no que chamamos, hoje, de conflito israelo-palestino. O que explica as posições do Brasil sobre o tema ao longo do tempo e, sobretudo, suas mudanças e nuances? Nesta palestra, pretendo realizar um sobrevoo histórico pela política externa do Brasil para Israel e Palestina, mostrando como o país se posiciona na encruzilhada entre busca pela justiça, ideologia e pragmatismo comercial. A intenção é jogar luz sobre episódios recentes à luz da história, contribuindo para a compreensão e o debate público sobre um tema que vem dividindo a sociedade brasileira.
 
1a. sessão:  Trump, as universidades norte-americanas e a questão israelo-palestina (11h - 13:00)
Mediadora: Gisele Sanglard (PPGHCS/COC/FIOCRUZ)

O que está acontecendo com as universidades norte-americanas? Donald Trump e a cruzada anti-Woke  

Flávio Limoncic (Historiador, UNIRIO)

Segundo a historiadora Gertrude Himmelfarb, desde os anos 1960 os Estados Unidos têm sido palco da convivência, que hoje se revela crescentemente tensa, entre aqueles que abraçam valores “austeros” e os que se identificam com valores “soltos”. Associadas à agenda “Woke” no discurso do “Make American Great Again” - portanto, aos valores “soltos” -, universidades têm sido alvo de políticas públicas que buscam constranger sua liberdade acadêmica e saúde financeira.

A minha apresentação buscará identificar as razões da tensão entre os portadores de valores “austeros” e valores “soltos”, as raízes da tradição anti-intelectual nos Estados Unidos, ora organizada pelo campo dos valores “austeros”, e como Donald Trump conseguiu mobilizar um amplo espectro de interesses e atores em torno de uma agenda política que têm, entre seus supostos adversários, as universidades norte-americanas. Tornando a conjuntura ainda mais complexa, tal tensão tem sido acionada pela administração Trump em meio às manifestações pró-Palestina em diversos campi norte-americanos.

A Tragédia de Gaza e as perspectivas de um estado palestino
Jawdat Abu El-Haj (Sociólogo, UFC). 
A apresentação sintetiza o depoimento de um professor universitário de origem palestina, combinando sua trajetória pessoal com uma análise acadêmica. Ela sugere duas motivações para a escalada do conflito a um nível de violência extrema, que chega a configurar limpeza étnica.
Primeiro, nas últimas duas décadas, além dos atores externos tradicionais (EUA, países europeus e Rússia), potências regionais ingressaram no jogo de influência. Isso aumentou as incertezas e a insegurança, levando à busca por aliados internos tanto entre palestinos quanto entre israelenses. Segundo, esse contexto externo encontrou uma afinidade eletiva com a hegemonia do nacionalismo conservador em Israel (extrema-direita) e na Palestina (Hamas).
Diante da hegemonia dessas ideologias de caráter nacional, a intensidade da violência a partir de 7 de outubro de 2023 era inevitável.

A Longa Sombra do Estado-Nação: o conflito israelo-palestino e (algumas) lições da Sociologia Histórica

André Vereta-Nahoum (Sociólogo, USP)

Esta comunicação pretende refletir sobre o conflito israelo-palestino a luz da sociologia histórica. Fruto da destruição de dois impérios, vemos no conflito dois pleitos por autodeterminação presos a essa imaginação nacional. O conflito israelo-palestino é marcado por narrativas nacionais antagônicas, onde cada lado constrói sua identidade em oposição ao outro. A imaginação nacional, fundamentada em memórias coletivas e traumas históricos, reforça divisões e legítimas reivindicações territoriais. Israel baseia sua legitimidade no sionismo e no Holocausto, enquanto os palestinos enfatizam a Nakba e a resistência à ocupação. Essas narrativas, perpetuadas por instituições e discursos políticos, alimentam um ciclo de violência e disputa, dificultando a reconciliação. Pretendo contribuir para o debate a partir da apresentação de alternativas no presente para conjugar esses pleitos com a extensão de cidadania e dignidade a todas as populações envolvidas em Israel e na Palestina.

Almoço: 13 às 14h
 
2a. sessão: Oriente Médio: usos e abusos da história  (14:00-16h)
 
Mediador: Rodrigo Cesar da Silva Magalhães (Historiador, Colégio Pedro II)
Terremoto Geopolítico no Oriente Médio: O Impacto do 7/10
Muna Omram (Historiadora, PUC-MG)
O ataque do Hamas a Israel em 7/10/23 desencadeou uma série de consequências entre elas o aumento da Islamofobia no Brasil,  e  transformações na geopolítica do Oriente Médio como na Síria, a queda  de Bashar al-Assad, permitindo que o HTS (Hay'at Tahrir al-Sham), grupo jihadista ex-afiliado à Al-Qaeda, chegasse ao poder. O Líbano, que vive uma crise econômica, política e social , não ficou imune, os choques entre Israel e Hezbollah intensificaram-se, e ainda hoje o Líbano vive sob ataque, mesmo com a desestruturação militar do Hezboallah. A apresentação analisará como esses eventos reconfiguram o equilíbrio de poder no Oriente Médio, agravando instabilidade, radicalização e os consequentes conflitos internos nos dois países e a escalada para um conflito transnacional ,como aconteceu com o Irã. 
Usos e abusos da história
Bernardo Sorj (Sociólogo, UFRJ)

O historiador procura reconstruir o passado respeitando as fontes disponíveis.  Ao  mesmo temo ele interroga a história a partir de  um  substrato normativo, e, por vezes, orientado por visões ideológicas ou, inclusive visando seu uso político.
A história se transformou no campo privilegiado do embate ideológico no conflito Israel-Palestina.  Argumentarei que se permanecer no campo do que aconteceu no passado o conflito leva à destruição mútua.  A resposta aos problemas do presente não é dada pelo passado, ainda que ele deva ser levado em consideração, mas pelos dados do presente e pelo projeto de futuro.
Antissemitismo e Negação da Alteridade: marcas dos fascismos
Francisco Carlos Teixeira da Silva (Historiador, UFRJ)

Cada fascismo cria seu próprio "judeu" como instrumento de mobilização permanente de paixões extremas.Nos Fascismos históricos, na Itália e na Alemanha, foram os "gli altri popoli contro il' Impero e il Duce" e  todos os chamados de  "aus-landisch" - estrangeiros e estranhos ao sangue ariano - os que estavam fora da "Volksgemeinschaft".  Judeus, o povo Roma & Sinti, eslavos, deficientes, homossexuais, todos que não fossem dolicicéfalos, louros e de olhos azuis - a fantasia letal do nazismo, a "Herrenrasse". Hoje, na Ressurgência fascista o "outro", o novo judeu conveniente para a mobilização das massas da pequena burguesia, dos "estranhados" da terra-plana, são os "indocumentados", latinos e africanos, morenos, negros e pardos que arriscam a própria vida para atravessar fronteiras, que ameaçaram a arianidade norte-americana e Europeia com a "grande substituição", uma invasão silenciosa da fortaleza wasp e a destruição dos "valores ocidentais" (o delírio do teórico neofascista Renaud Camus).  A História não se repete. Trata-se em verdade dos enlaces e apropriações do passado no Tempo Presente, através de uma novilíngua racista que tem como gramática o antissemitismo. 

 

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Seminário: "História Global, Conflitos Locais"
Portuguese, Brazil