Religiões no Brasil de hoje: Uma leitura secularizada

Segundo semestre – 2017

Quintas-feiras das 17:30 às 19:30

 

Nas últimas décadas o Brasil conheceu profundas mudanças religiosas. O catolicismo declinante, mas ainda majoritário, produziu novas formas de religiosidade, teologias e movimentos. Os evangélicos se multiplicaram em número de igrejas, fiéis e orientações. Religiões afro-brasileiras tradicionais deixaram antigos redutos negros e se espalharam pelo país. Nesse quadro se juntam outras religiões de diferentes partes do mundo e as nascidas aqui, além de espiritualidades construídas de forma autônoma, por indivíduos sem vínculo institucional. E também os sem religião, agnósticos e ateus. Essa diversidade atesta e reforça a natureza secularizada da sociedade contemporânea, com mais liberdade de escolha e maior oferta para os que incluem a religião em suas orientações e modos de vida. O curso tem o objetivo de expor diferentes fenômenos religiosos que emergem nesse cenário contemporâneo.

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Do Brasil católico ao Brasil evangélico e o que está pelo meio – Reginaldo Prandi

Ementa: Desde o século XX, o eixo principal das mudanças religiosas no Brasil pode ser identificado no declínio do catolicismo. Cada vez mais, e de modo mais acelerado, a identificação católica foi sendo substituída pela filiação a outras religiões, de modo geral igualmente cristãs. O catolicismo não assistiu inerte a tal transformação e vários foram os reavivamentos que buscaram manter seus fiéis ou trazê-los de volta. Por outro lado, as religiões que têm se abastecido das fileiras católicas se multiplicaram, diversificaram-se e mudaram suas doutrinas. Em meio a isso tudo, as religiões de menor apelo, em se tratando da capacidade de agregar grandes números de fiéis, mas que dispunham de acervos simbólicos muito expressivos e condizentes com demandas da cultura brasileira, vieram a completar esse quadro de diversidade religiosa em uma sociedade cada vez mais secularizada. O Brasil estaria deixando de ser católico para se transformar em um país cada vez mais evangélico? É o que se discutirá nesta aula.

 

Textos:

PRANDI, Reginaldo (2008). “Converter indivíduos, mudar culturas”. Tempo Social, São Paulo, vol. 20, n° 2, p. 155-72. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/ts/v20n2/08.pdf>.

PRANDI, Reginaldo e SANTOS, Renan William (2015). “Mudança religiosa na sociedade secularizada: o Brasil 50 anos após o Concílio Vaticano II”. Contemporânea, São Carlos, vol. 5, nº 2, p. 351-79. Disponível em <http://www.contemporanea.ufscar.br/index.php/contemporanea/article/view/349/155>.

_____ (2017). “Quem tem medo da bancada evangélica?: posições sobre moralidade e política no eleitorado brasileiro, no Congresso Nacional e na bancada evangélica”. Tempo Social, São Paulo, vol. 29, nº 2, p. 187-213. Disponível em <https://www.revistas.usp.br/ts/article/view/110052/130984>.  

 

Militantes e conformados: Crises do catolicismo brasileiro – Massimo Bonato

Ementa: No decorrer da década de 1950, militantes de movimentos católicos se engajaram em diversas tarefas, como educação e alfabetização, e em diferentes ambientes da sociedade brasileira: escola, universidade, trabalho (notadamente no meio operário). Também a partir dessas experiências de militância e vivência cristã teve origem a chamada Teologia da Libertação, tornando-se nos anos 1970 e 1980 um espaço decisivo de militância social e política contra o regime militar. Nesse sentido, essa aula pretende discutir como, em âmbito católico, as experiências de militância católica se reconfiguraram em compasso também a uma crise que se investiu contra o catolicismo brasileiro como um todo em uma multiplicidade de planos – redução das vocações sacerdotais e religiosas, do número de pessoas que se declaram católicas, das práticas formais etc. Com base nisso, pretende-se pensar como a igreja católica, em termos institucionais, procurou efetivar estratégias e respostas diante a mudanças que geraram tanto um retraimento perante outros competidores religiosos quanto uma perda de influência na sociedade.

 

Textos:

BONATO, Massimo. Igreja católica e modernização social. A crise do catolicismo a partir da experiência missionária de um grupo de jovens italianos em Belo Horizonte nos anos 1960. 2014. Tese (Doutorado em Sociologia) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014. doi: 10.11606/T.8.2014.tde-13102014-171639.

LOWY, Michael, A Guerra Dos Deuses. Religião e política na América Latina. Petrópolis: Vozes, 2000.

SERBIN, Kenneth. Padres Celibato e Conflito Social. Uma história da Igreja Católica no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

 

Como fazer um santo nos dias de hoje: Povo versus Igreja – Thiaquelliny Teixeira Pereira

Ementa: A santificação popular é uma prática tradicional que existe desde o início da era cristã. Os primeiros a serem santificados foram os mártires, depois os confessores e os ascetas. Até o início do século XI, a canonização se dava por consenso, os bispos encaminhavam a proposta ao Papa, expressando o desejo popular local; dando origem ao ditado: “vox populi, vox Dei”, voz do povo, voz de Deus. Após a reforma gregoriana, a Igreja reservou somente para si o direito de proceder com a canonização. Apesar de seus esforços, ela ainda não conseguiu controlar a santificação popular. Novos santos continuam surgindo alheios ao seu controle. Nesta aula, discutiremos toda essa trajetória, os interesses e conflitos envolvidos entre o povo e a Igreja, refletindo sobre como fazer um santo nos dias de hoje.

Textos:

DOUILLET, Jacques. Que é um santo? Sei e creio, enciclopédia do católico no século XX. Quarta parte: a vida em Deus, os mediadores. Trad. Lucia J. Villela. Editora Flamboyant, 1960.

QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O catolicismo rústico no Brasil. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. n. 5.  São Paulo, p.103-123, 1968.

 

O lugar dos mortos revivido: a dessacralização dos cemitérios – Luiz Vicente Justino Jácomo

Ementa: Pretende-se discutir neste módulo o processo de dessacralização dos cemitérios, aqui entendido como resultado de um processo mais amplo, o de secularização. Com o avanço da secularização, domínios outrora encontrados sob a responsabilidade de autoridades religiosas -- leia-se, no caso brasileiro, a Igreja Católica -- foram sendo paulatinamente assumidos pelo poder público, pelo Estado. Os registros de nascimento, dos casamentos, dos óbitos, bem como a destinação dos corpos defuntos, nesse processo, foram incluídos no rol de atribuições estatais a partir de meados do século XIX. Como consequência, especificamente no que diz respeito aos mortos, foram criados os primeiros cemitérios públicos no Brasil, incluindo o da Consolação, em São Paulo, o primeiro cemitério público da cidade. Desde então, o lugar dos mortos passou integrar a cidade dos vivos, assumindo um importante papel na configuração do espaços urbanos. Atualmente, e como resultado da concepção dos cemitérios enquanto um lugar civil, diferentes demandas por ocupação disputam esses territórios, tanto a partir de visões re-sacralizantes destes espaços, bem como a partir de noções seculares, como lazer, cultura e diversão. A partir das relações envolvidas nesse jogo de forças, espera-se poder compreender, ainda que de forma panorâmica, quais os atores e argumentos envolvidos nessa disputa.

Textos:

CATROGA, Fernando (2010). O culto dos mortos como uma poética da ausência. ArtCultura, Uberlândia, v.12, n.20, p.163-182, jan.-jun.

 

CYMBALISTA, R. Discursos e Posturas. A legislação paulista face ao desafio da criação dos cemitérios periféricos no século XIX. Anais: Encontros Nacionais da ANPUR, v. 10, 2013.

 

PRANDI, Reginaldo. A arte de enterrar, ou brevíssimas lições sobre a etiqueta da morte na tradição paulista do interior. Folha de S. Paulo, São Paulo, p. A-3, 02 nov. 1987.

 

 

Entre a cruz e o palanque: Religião e política partidária – Guilherme Borges

Ementa: Por meio desta aula, serão observadas estratégias de ação política conduzidas por agentes religiosos católicos e evangélicos. O objetivo é discutir essas iniciativas, tendo em vista avaliar se e como elas se relacionam com a condição laica do estado brasileiro. Para isso, focará a atuação de religiosos tanto nas controvérsias que perpassaram as disputas presidenciais de 2010, quanto em meio à decisão da Câmara Federal pela abertura do impeachment da presidente Dilma. Além disso, serão examinados projetos de lei apoiados pelas frentes católica e evangélica do Congresso Nacional. Nos casos recortados para análise, religião mostra ser apenas grupo de interesse, não passa de lobby atuando politicamente na tentativa de barganhar reivindicações e suprir demandas que lhe são oportunas.

Textos:
DOBRY, Michel (2014), Sociologia das crises políticas. São Paulo, Editora Unesp.

SALLUM JR., Brasilio (2016), “Crise política e impeachment”. Revista Novos Estudos Cebrap, nº 105. São Paulo, Cebrap: pp. 183-203.         

Um fim do mundo para cada gosto: Religião e ecologia – Renan William dos Santos

Ementa: “Nós somos o meteorito gigante de nossa época”, diz Edward Wilson, um dos biólogos mais badalados da atualidade, ao discutir o potencial destrutivo da ação humana sobre o meio ambiente. Frente ao novo tipo de fim do mundo postulado pela ecologia, variados tipos de salvacionismo são apresentados. Em muitos momentos, essas narrativas entram em tensão com as visões de mundo religiosas. Do lado religioso, a tensão pode ser resolvida de diversas maneiras, em um espectro que vai da refutação total das diretrizes ecológicas até a transformação de seus sentidos, de forma a incorporá-los em um corpo doutrinário já estabelecido. São esses cruzamentos, tensões e incorporações entre religião e ecologia que se pretende discutir nesta aula, tendo como pano de fundo a teorização sobre como as religiões respondem aos desafios colocados pela modernidade.

Textos:

TAYLOR, Bron (2004). A Green Future for Religion?. Futures, n. 36, p. 991-1008. Disponível em <http://www.brontaylor.com/environmental_articles/pdf/Taylor--GreenFuture4Rel.pdf>.

SANTOS, Renan William dos (2016). Uma velha moral reciclada: A retórica conservadora no engajamento ambientalista da Igreja Católica. Anais do 40° Encontro Anual da ANPOCS. Disponível em <http://www.anpocs.com/index.php/papers-40-encontro/spg-3/spg28/10524-uma-velha-moral-reciclada-a-retorica-conservadora-no-engajamento-ambientalista-da-igreja-catolica-1/file>.

WHITE Jr., Lynn (2007) [1967]. Raíces históricas de nuestra crisis ecológica. Revista Ambiente Y Desarrollo de CIPMA, 23 (1), Santiago de Chile, p. 78-86. Disponível em <http://latinoamericana.org/2010/info/docs/WhiteRaicesDeLaCrisis.pdf>.

 

Os deuses no fundo do quintal: Entre a magia e a ética – João Luiz de Almeida Carneiro

Ementa: O termo “religiões afro-brasileiras” é um constructo científico, de grande assimilação por parte do público religioso, que delimita o conjunto de religiões, cultos e variantes rituais depositárias das contribuições simbólicas e socioculturais de praticamente três grandes grupos no Brasil: africanos, europeus e ameríndios. Cada grupo tem maior ou menor influência em conjuntos de práticas específicas das religiões afro-brasileiras, sem solução de continuidade. Os ameríndios com a encantaria, os africanos com o candomblé, os europeus com a umbanda.

As variantes das religiões afro-brasileiras, em especial candomblé e umbanda, esperam que seus fiéis orientem eticamente o comportamento na esfera cotidiana, portanto, para além do terreiro. Como se dá tal complexidade ética? De que maneira as questões “de dentro” do terreiro se expressam no cotidiano? A aula tratará essas questões em diálogo com o conceito de magia.

Textos:

CAMARGO, Candido Procópio Ferreira de. Kardecismo e umbanda. São Paulo: Pioneira, 1961.

CARNEIRO, João Luiz. A ética como extensão do Diálogo: Contribuições de Habermas para a Ética do Discurso. São Paulo: Arché, 2012.

____. Religiões Afro-brasileiras. Petrópolis: Vozes, 2014.

PRANDI, Reginaldo. Os candomblés de São Paulo. São Paulo: Hucitec/Edusp, 1991.

____. Herdeiras do axé. São Paulo: Hucitec/Edusp, 1996.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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